Tuesday, November 17, 2009

Cidadania

Lutam
Apenas e porque
Se sucedem lutos

E lutam
Nesse pelotão
Os que de luto acontecem
No sobrevir doutros lutos
Que de dia anoitecem
E de noite já não

E lutam
Porque e apenas
Sabem que o que ao nada sucede
É o que antecede e tão só
O que numa luta se perde
No mundo, na Grécia, em Atenas

E lutam, pois sim
Aí, em Plutão
Lutam com fim
E não dizem que não

Ah, morreu o Pluto

andalsness

Misiva Invernal (Traducción al Portuñol)

canta el estío
para que recuerdes
que en el septentrión cielo
todo se inscribe

que ridícula es la herida
que serena eres
la dulzura que fuiste

que sientes a flor
y que te quedas a piel
del vasto sentido que no tiene la vida

oye
no oías solo (a)
lo que la soledad permite
desespera, si
de noche, de día,
cambia todo y apenas lo que no varia
busca el vahído que sucede esa breve orgía

y oye
abre camino por la senda de la noche
y calca todo
rasga el cardillo, rompe la uva
roba el vino, pisa la sangre
y aún
la nota que traigas el la palma del guante*

no olvides, oye
salta la luz y en el cumbre de la brea
abre el pestillo y ama
lo visitante que pernocta
el la puerta de tu aurora
despues
dejale ir e revive
flemática
el sobrer del veneno de tu memoria


andalsness

Saturday, June 13, 2009

Da Loquela Taciturna

Conheço-lhe a comedida métrica
e a sensibilidade do mesocarpo
As asperezas rentes
e as branduras fundas
E, em cada frase, cada disfrase da alma
Fosse antes sedutora, em acto único,
sem subterrefúgios
Mas não é cércea que a colho
Ou desejo colherar
Para tal e para tanto que venha nua
e crua
A alma tártara, a carne bárbara
E só
Pois que o é, por desgraça, uma solidão
E sei bem que a ausência da mais diminuta dúvida a incertos pertence
Mas sei também que
assim mesmo
na palavra silêncio
me resvala o zelo
para desvelo

andalsness

Monday, June 16, 2008

Pequenez (More Than This)

É matéria de artéria
De facto
Pútrida de afectos fátuos
Emana do medos
E espontaneamente
Inflama, combusta, conflagra
Alvoroça, revolta, subleva
Fosforesce e zaz
Amotina a paz

É que acaso a paixão ocasional
Não basta para do peito desterrar
E, cerimonialmente, enterrar
Esse monstro da mofina nominal
Seja então que, assim, sem hesitar
Chegue, cegue e desassossegue
Desperte, sobressalte e mate o susto
Engasgue, esgane e engane o soluço
Que vai mortificando este ocaso passional

É violento
E se viola o tento
As retinas turva
Força-as em curva
Silencia a palavra
A pequena e a farta
Talha a língua
A boa e a míngua
E assim
Sem sim
Nas cordas se enforcam
A cada pequena vez
Todos os brados que tocam
A minha pequenez

andalsness

Wednesday, June 11, 2008

missiva invernal

canta o estio
para que recordes
que no setentrião céu
tudo se inscreve

que ridícula é a ferida
que serena és
a doçura que foste
que sentes à flor e que ficas à pele
do vasto sentido que não tem a vida

ouve
não ouças só
o que a solidão permite
desespera, sim
de noite, de dia
muda tudo e apenas o que não varia
busca o delíquio que sucede essa breve orgia

e ouve
abre caminho na senda da noite
e calca tudo
rasga o cardo, rompe a uva
rouba o vinho, pisa o sangue
e ainda
o bilhete que tragas na palma da luva

não esqueças, ouve
galga a luz e no cume do breu
abre o trinco e ama
o visitante que pernoita
na porta da tua aurora
depois
deixa-o ir e revive
vagarosa
o sorver do veneno da tua memória

andalsness

Thursday, March 6, 2008

Sentou-se, tremeu e sorriu. E nada disse, que os cactos são vegetais com atitude. Ouvia-a, estava ausente. Sempre gostou do inóspito da noite. O frio. O mar. Imaginou-se lá, aos primeiros raios da aurora invernal, a retorcer as carnes no assalto das espumas, a ralar as dermes nas areias salgadas. São vêemências suas, como as outras. Olho-a e tocou-lhe a mão. Ela sorriu. Levantou-se, pegou nela e foi. Que hora é de agendar fim à insolente desobediência desse sonho a que chamam realidade.

andalsness

Wednesday, February 27, 2008

Escultora

sara-me, escultora de palavras e poções
do que é o dom de saber da dor o encanto
atalha-lhe o meandro, desagua-me já
cerceia, tritura, mas não me abrases
que nesta terra do fogo a água é de pedra

que alma terei eu de ti, em mim?
que ferida esta, os teus lábios de sal?
que céu, esta manta de tão justo sono?
mas que ventre este o que mordo?

espero eu que te importe
o suor
o ardor
e o sangue
e que assim o diga ao mundo
pois que mais não sei de mim
e, em ti, apenas rumar fundo

andalsness