Legado desse acidente é esta lata. E pouco restou que não esta lata, fina, longa, elegante até, de um vermelho tomate pouco vivo, como despojos outros, aliás. O Víctor, por exemplo, sobrou. É um sapo, aspirante a homem-rã. Ao dobrar a curva, ali o avistei, ao lado das remanescências do seu coche rojo, vociferando no seu castelhano perfeito, disputando culpas com o condutor do tractor. A cada vão impulso da ira apartavam-se um pouco mais, patinando no tapete de polpa de tomate Almeriense. Magnólia ao contrário. O Víctor é instrutor de buceo, técnico de soldadura de profundidade e um sapo. Um sapo, de lata vermelha na mão, aturdido, na curva da estrada, com pouco plástico para polir, esperando o comboio que jamás llegará. Regalou-ma quando o levei al pueblo. Sentados ao luar numa manta azul cuidadosamente esticada e em exemplar alinhamento com os cantos do iglu industrial bebiam o vinho. Ele depilava a ponta dos dedos na cera da vela. Ela, em estocadas secas, tatuava melgas no corpo com o rolo de papel de cozinha. Meia hora mais desta paz e, num ainda outro franzir das sobrancelhas, fita-me uma vez mais e ensaia uma risada, “elas a mim não me tocam”, dirijo-me ao carro, recupero a lata, fina, longa, de um vermelho pouco vivo, “se quiser pode usar, não é insecticida, mas sempre é mais duro".
andalsness
Saturday, October 10, 2009
Love Bug
Segurando o pau na vertical, preparava-se para iniciar o movimento que o esmagaria. Não o vais matar, pois não? Olhou-me, em silêncio de contra-luz. Não o mates. Porquê? Porque ele não faz mal a ninguém. Resgatei-o ao corredor da morte e mostrei-lho inofensivo. Mas eu não gosto de bichos. Não, tu não gostas de alguns bichos, não gostas de cobras. Nem de moscas! Pois, de moscas ninguém gosta, essas também eu as mato. Pousei o escaravelho no chão. Empunhou o pau, não parecia convencido. Deixa cá ver a via clássica - pensei – e se aparecesse aqui um bicho do tamanho que tu tens para esse e te espezinhasse? Levantou o olhar donde tinha descido para acompanhar o movimento do meu pé e, lentamente, a compreensão mirrou-lhe as pupilas. Do gratuito, claramente. Despedi-me, peguei no nécessaire e dirigi-me à mala do carro. Vestida a t-shirt, passo o olhar pela porta do wc, nem puto, nem pau, apenas um ponto negro no chão, imóvel. Ali se prostrava, esperneando de patas para o ar. O pau tinha desaparecido. Com o pé, tento virá-lo com um piparote. Sem êxito, dou-lhe um segundo piparote. Ao iniciar o movimento do terceiro sou sobressaltado por um ressonante adeus. Levanto a cabeça e, em câmara lenta, um carro cruza a rua e, na janela deste, o puto, de braço esticado, varre, em câmara lenta, o espaço com um leque de dedos bem abertos, rasgando, em câmara lenta, o mais generoso dos sorrisos. Em câmara lenta, enceto o esboçar dum aceno e, em câmara lenta, da retribuição do sorriso e, em câmara lenta, digo o tchau que abafa o estalido crocante.
andalsness
andalsness
Mar
- Mar?
- É o nome duma delas, acho. Escrevi-o antes, no livrinho que levo comigo.
- Não faço puto.
- Nem eu. Mas é linda, alta, esguia, de cair.
- Um pequenino?
- Sim, o que levo sempre comigo. Tem uns olhos verdes imensos.
- Verde-mar?
- Sim, um verde marinho, lindo de morrer, já estás a ver qual é?
- Acho que sim, de bolso, não é?
- Ela man, ela, é Mar não é? Estava no bar, ao balcão. Não bebe muito.
- Qual?
- Uma delas, a do lado de fora do balcão. Essa foi a segunda vez que a vi. Tinha calças de ganga.
- Mas qual?
- De um dos dois bares lá de baixo, não recordo o nome. Estava com um amigo.
- Mas qual balcão?
- Só há um balcão man, à direita. Ali estava, tranquila, dava ideia de ser cliente habitual.
- Ah, o balcão, o da empregada.
- Sim, esse, o bar, do balcão, da empregada. Estava só com um dos dois amigos da primeira vez.
- A empregada tem um amigo?
- Não, um amigo dela, ela estava lá com um amigo. E foi-se embora mais cedo, sozinha.
- Não me lembro de nenhum amigo, está sempre ocupada.
- Sim, estava com um amigo. Quando saiu do bar parou nas escadas.
- Qual bar?
- Aquele em que se desce umas escadas. Do interior, apenas lhe via metade do corpo.
- Da empregada?
- Não, do dela, nas escadas, man, concentra-te. A elegância daquela mão esquerda em acidental pendência cravou-se-me na memória.
- Mas no bar da empregada, certo?
- Sim, no de música 60’s, assim mais psicadélica. Absolutamente fantástica aquela mão, através da porta de vidro, deixada, recolhida ligeiramente para trás, quase em repouso, evitando apenas tocar na perna da amiga que cumprimentava, um degrau acima.
- No outro também, depende das noites.
- Mas muda mais. Uma mão, recordo-lhe uma mão, antes da cor dos olhos ou do cabelo.
- De empregada?
- A música porra, a empregada é sempre a mesma. Ela é nova, não faço ideia de que idade tenha, mas não é muito de sair.
- À semana não.
- Pois não, nunca a vi sair num dia de semana. Mas a terceira noite que a vi foi naquele concerto mais teen, que acho que foi num dia de semana.
- Mas deve sair, ela à semana não trabalha.
- Mas caga na empregada man. Ela. Ela não é muito de sair à semana. Durante o concerto olhava bastante, de soslaio, enquanto falava com a amiga.
- Foram ao concerto as duas?
- Sim, foi com uma amiga. Nesse dia foi embora ainda mais cedo, mas tenho quase a certeza que era dia de semana.
- Não, à semana não está lá.
- Mas não está lá aonde man? A forma furtiva como me olhava, tem uma timidez desconcertante.
- No bar.
- Não, no concerto, man, não é no bar. E por outro lado não. Sempre que passava os olhos por ela estava a olhar.
- Não, no bar à semana não.
- Qual era o nome dela? Era Mar, não era?
- Não faço puto.
- Esta manhã comprei dois selos e comecei a escrever-lhe uma carta.
- É esse o livro?
- Sim. Não sei que lhe diga, o verbo nunca foi dom meu.
- É uma espécie de passaporte sentimental?
- Não, será mais um livrete de condução emocional. Nunca fui Orfeu para tocar cordas outras que não as das malhas da razão.
- O livro tem uma mancha.
- É sangue. Antes, espécie de Fénix macho e sem plumas com 999 anos de idade.
- Mas carimbas com sangue?
- Não, cortei-me na corda da roupa. Mas escaldado apenas, que não transcende, não se transpõe, do seu brilho próprio, ao próprio brilho.
- Ah, o livro é uma espécie de registo ou atestado de uns quaisquer 100 anos de solidão?
- Não, é apenas um diário pouco rigoroso. Talvez lhe escreva a carta amanhã, com tempo.
- Não escreves todos os dias?
- Não, é muito raro, apenas em ocasiões especiais. A quarta vez que a vi foi num fim-de-semana, no outro bar.
- Então não é um diário.
- Não, é um quando é. Estava com uma amiga, só as duas.
- No outro bar, da empregada?
- Sim, mas da outra. Estavam ao balcão e a amiga estava muito animada.
- Ah, esta não é a mesma?
- Não sei, por acaso até acho que sim, acho que era a que estava no concerto, sim. E, nisto, chega um tipo que parecia jesus cristo e que monopolizou a atenção da amiga.
- A empregada estava no concerto?
- A amiga, a loira, a amiga dela, qual empregada no concerto man. Foi curioso – é linda; um minuto de abandono apenas e ficou imediatamente inquieta.
- Mas podia muito bem estar, se foi à semana.
- Poderia, mas não estava. Sentada ao balcão, com a amiga ao meio e o jesus na outra ponta, olhava a amiga, olhava o jesus.
- A empregada é muito fixe.
- São as duas. Estava de costas para mim, olhava a parede, olhava o relógio, olhou para trás, passou o olhar por mim e firmou o olhar num ponto vazio atrás de mim.
- A outra é mais gira.
- Sim, parece estrangeira. Esteve assim uns bons dez segundos até que, por fim, deslizou o olhar para o meu e, nos seus lábios, deu-me a ler um olá surdo.
- Qual, a outra?
- Sim, é mais sóbria e séria. Respondi com a mesma mudez e, nem que pudesse, desviaria o olhar dela.
- Epá está a trabalhar, aquilo tá cheio ao fim de semana.
- Não, é mesmo mais séria, mas muito doce. Desviou ela o olhar, ensaiando voltar-se de novo para a amiga e seu jesus.
- Tem assim uma cena de Amélie.
- Sim, foi o que lhe disse. A meio caminho, retrocedeu, olhou-me fixamente e sorriu.
- Foi o que lhe disseste?
- Sim, chamei-lhe Amélie. Não desviei o olhar, nem que quisesse o desviaria.
- Mas tu falaste com ela?
- Não, escrevi-lhe na dedicatória do livro. Pouco depois, paguei, fui comer qualquer coisa e dirigi-me ao outro bar.
- Ah, no teu diário.
- Não, deixei-lhe um livro no bar, para ela. Uma meia hora mais tarde, entro no bar e lá estavam elas, ao balcão, conversando com a empregada.
- Tu deixaste um livro à empregada?
- Sim, num dia de semana. Olharam-me as três e sorriram.
- Ela não está lá à semana.
- Pois não.
andalsness
- É o nome duma delas, acho. Escrevi-o antes, no livrinho que levo comigo.
- Não faço puto.
- Nem eu. Mas é linda, alta, esguia, de cair.
- Um pequenino?
- Sim, o que levo sempre comigo. Tem uns olhos verdes imensos.
- Verde-mar?
- Sim, um verde marinho, lindo de morrer, já estás a ver qual é?
- Acho que sim, de bolso, não é?
- Ela man, ela, é Mar não é? Estava no bar, ao balcão. Não bebe muito.
- Qual?
- Uma delas, a do lado de fora do balcão. Essa foi a segunda vez que a vi. Tinha calças de ganga.
- Mas qual?
- De um dos dois bares lá de baixo, não recordo o nome. Estava com um amigo.
- Mas qual balcão?
- Só há um balcão man, à direita. Ali estava, tranquila, dava ideia de ser cliente habitual.
- Ah, o balcão, o da empregada.
- Sim, esse, o bar, do balcão, da empregada. Estava só com um dos dois amigos da primeira vez.
- A empregada tem um amigo?
- Não, um amigo dela, ela estava lá com um amigo. E foi-se embora mais cedo, sozinha.
- Não me lembro de nenhum amigo, está sempre ocupada.
- Sim, estava com um amigo. Quando saiu do bar parou nas escadas.
- Qual bar?
- Aquele em que se desce umas escadas. Do interior, apenas lhe via metade do corpo.
- Da empregada?
- Não, do dela, nas escadas, man, concentra-te. A elegância daquela mão esquerda em acidental pendência cravou-se-me na memória.
- Mas no bar da empregada, certo?
- Sim, no de música 60’s, assim mais psicadélica. Absolutamente fantástica aquela mão, através da porta de vidro, deixada, recolhida ligeiramente para trás, quase em repouso, evitando apenas tocar na perna da amiga que cumprimentava, um degrau acima.
- No outro também, depende das noites.
- Mas muda mais. Uma mão, recordo-lhe uma mão, antes da cor dos olhos ou do cabelo.
- De empregada?
- A música porra, a empregada é sempre a mesma. Ela é nova, não faço ideia de que idade tenha, mas não é muito de sair.
- À semana não.
- Pois não, nunca a vi sair num dia de semana. Mas a terceira noite que a vi foi naquele concerto mais teen, que acho que foi num dia de semana.
- Mas deve sair, ela à semana não trabalha.
- Mas caga na empregada man. Ela. Ela não é muito de sair à semana. Durante o concerto olhava bastante, de soslaio, enquanto falava com a amiga.
- Foram ao concerto as duas?
- Sim, foi com uma amiga. Nesse dia foi embora ainda mais cedo, mas tenho quase a certeza que era dia de semana.
- Não, à semana não está lá.
- Mas não está lá aonde man? A forma furtiva como me olhava, tem uma timidez desconcertante.
- No bar.
- Não, no concerto, man, não é no bar. E por outro lado não. Sempre que passava os olhos por ela estava a olhar.
- Não, no bar à semana não.
- Qual era o nome dela? Era Mar, não era?
- Não faço puto.
- Esta manhã comprei dois selos e comecei a escrever-lhe uma carta.
- É esse o livro?
- Sim. Não sei que lhe diga, o verbo nunca foi dom meu.
- É uma espécie de passaporte sentimental?
- Não, será mais um livrete de condução emocional. Nunca fui Orfeu para tocar cordas outras que não as das malhas da razão.
- O livro tem uma mancha.
- É sangue. Antes, espécie de Fénix macho e sem plumas com 999 anos de idade.
- Mas carimbas com sangue?
- Não, cortei-me na corda da roupa. Mas escaldado apenas, que não transcende, não se transpõe, do seu brilho próprio, ao próprio brilho.
- Ah, o livro é uma espécie de registo ou atestado de uns quaisquer 100 anos de solidão?
- Não, é apenas um diário pouco rigoroso. Talvez lhe escreva a carta amanhã, com tempo.
- Não escreves todos os dias?
- Não, é muito raro, apenas em ocasiões especiais. A quarta vez que a vi foi num fim-de-semana, no outro bar.
- Então não é um diário.
- Não, é um quando é. Estava com uma amiga, só as duas.
- No outro bar, da empregada?
- Sim, mas da outra. Estavam ao balcão e a amiga estava muito animada.
- Ah, esta não é a mesma?
- Não sei, por acaso até acho que sim, acho que era a que estava no concerto, sim. E, nisto, chega um tipo que parecia jesus cristo e que monopolizou a atenção da amiga.
- A empregada estava no concerto?
- A amiga, a loira, a amiga dela, qual empregada no concerto man. Foi curioso – é linda; um minuto de abandono apenas e ficou imediatamente inquieta.
- Mas podia muito bem estar, se foi à semana.
- Poderia, mas não estava. Sentada ao balcão, com a amiga ao meio e o jesus na outra ponta, olhava a amiga, olhava o jesus.
- A empregada é muito fixe.
- São as duas. Estava de costas para mim, olhava a parede, olhava o relógio, olhou para trás, passou o olhar por mim e firmou o olhar num ponto vazio atrás de mim.
- A outra é mais gira.
- Sim, parece estrangeira. Esteve assim uns bons dez segundos até que, por fim, deslizou o olhar para o meu e, nos seus lábios, deu-me a ler um olá surdo.
- Qual, a outra?
- Sim, é mais sóbria e séria. Respondi com a mesma mudez e, nem que pudesse, desviaria o olhar dela.
- Epá está a trabalhar, aquilo tá cheio ao fim de semana.
- Não, é mesmo mais séria, mas muito doce. Desviou ela o olhar, ensaiando voltar-se de novo para a amiga e seu jesus.
- Tem assim uma cena de Amélie.
- Sim, foi o que lhe disse. A meio caminho, retrocedeu, olhou-me fixamente e sorriu.
- Foi o que lhe disseste?
- Sim, chamei-lhe Amélie. Não desviei o olhar, nem que quisesse o desviaria.
- Mas tu falaste com ela?
- Não, escrevi-lhe na dedicatória do livro. Pouco depois, paguei, fui comer qualquer coisa e dirigi-me ao outro bar.
- Ah, no teu diário.
- Não, deixei-lhe um livro no bar, para ela. Uma meia hora mais tarde, entro no bar e lá estavam elas, ao balcão, conversando com a empregada.
- Tu deixaste um livro à empregada?
- Sim, num dia de semana. Olharam-me as três e sorriram.
- Ela não está lá à semana.
- Pois não.
andalsness
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