Saturday, October 10, 2009

Love Bug

Segurando o pau na vertical, preparava-se para iniciar o movimento que o esmagaria. Não o vais matar, pois não? Olhou-me, em silêncio de contra-luz. Não o mates. Porquê? Porque ele não faz mal a ninguém. Resgatei-o ao corredor da morte e mostrei-lho inofensivo. Mas eu não gosto de bichos. Não, tu não gostas de alguns bichos, não gostas de cobras. Nem de moscas! Pois, de moscas ninguém gosta, essas também eu as mato. Pousei o escaravelho no chão. Empunhou o pau, não parecia convencido. Deixa cá ver a via clássica - pensei – e se aparecesse aqui um bicho do tamanho que tu tens para esse e te espezinhasse? Levantou o olhar donde tinha descido para acompanhar o movimento do meu pé e, lentamente, a compreensão mirrou-lhe as pupilas. Do gratuito, claramente. Despedi-me, peguei no nécessaire e dirigi-me à mala do carro. Vestida a t-shirt, passo o olhar pela porta do wc, nem puto, nem pau, apenas um ponto negro no chão, imóvel. Ali se prostrava, esperneando de patas para o ar. O pau tinha desaparecido. Com o pé, tento virá-lo com um piparote. Sem êxito, dou-lhe um segundo piparote. Ao iniciar o movimento do terceiro sou sobressaltado por um ressonante adeus. Levanto a cabeça e, em câmara lenta, um carro cruza a rua e, na janela deste, o puto, de braço esticado, varre, em câmara lenta, o espaço com um leque de dedos bem abertos, rasgando, em câmara lenta, o mais generoso dos sorrisos. Em câmara lenta, enceto o esboçar dum aceno e, em câmara lenta, da retribuição do sorriso e, em câmara lenta, digo o tchau que abafa o estalido crocante.

andalsness

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