Tens uma beleza aí, dessas poucas tão óbvias para mim. Não sei, porém, viver coisa outra que não a ficção. No sense of reality, aqui, aí, a meio caminho, em qualquer Brazil. E, com o pouco de wild que vai restando para investir into, não consigo articular um raciocínio nem ao ritmo que a redacção de uma frase permite. É, porém, procurando que doente de mim me encontro. Me vou encontrando, digo. Sabes, deveria comentar antes a vida. Não a olho, capturo-a desiteresadamente para depois (e como sempre) me fazer grande ao olho alheio, em tempo irreal, em deferido indeferido, manipulando-a, dando-lhe (subtraindo-lhe) esse outro brilho, contrastando-a à ficção sonhada de um real banal, exactamente esse a que não me dei viver nesse próprio instante. E, sabes, vou ganhando curiosidade por Pessoa a cada vida que passa. Ora bem, chegou ao balcão, acercou-se do meu ouvido e exclamou: “Sai de casa para não suicidar-me". “A sua selecção literária não será a mais aconselhável“, respondi. “Mal Momento” era o título do livro que acabara de pousar no balcão. E, ao que parece, não tem conhecido outros. Mas há mais.
andalsness
Sunday, October 17, 2010
Saturday, October 9, 2010
Highway of Endless Dreams
adds only one feature to the game
the possibility of death
but just before
you free that will of yours
grab those 50 cents and
buy us that popsicle
for you'll be claiming that juice prize
alright
but not before
you're old and beautiful
andalsness
dusk 'till dawn
Thursday, July 1, 2010
Al flamma la nuit
Huit allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour casser le miroir
La troisième pour attacher tes mains
La quatrième pour te faire rougir
La cinquième pour découvrir ta langue des signes
La sixième pour assourdir ta bouche
La septième pour te déshabiller de tes masques étouffants
La dernière pour te mettre en feu
Et l'obscurité toute entière pour me rappeler tout cela
Al flamma la nuit, adaptation de Paris la nuit, trois allumettes, Jacques Prévert (June 2009)
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour casser le miroir
La troisième pour attacher tes mains
La quatrième pour te faire rougir
La cinquième pour découvrir ta langue des signes
La sixième pour assourdir ta bouche
La septième pour te déshabiller de tes masques étouffants
La dernière pour te mettre en feu
Et l'obscurité toute entière pour me rappeler tout cela
Al flamma la nuit, adaptation de Paris la nuit, trois allumettes, Jacques Prévert (June 2009)
Tuesday, November 17, 2009
Cidadania
Lutam
Apenas e porque
Se sucedem lutos
E lutam
Nesse pelotão
Os que de luto acontecem
No sobrevir doutros lutos
Que de dia anoitecem
E de noite já não
E lutam
Porque e apenas
Sabem que o que ao nada sucede
É o que antecede e tão só
O que numa luta se perde
No mundo, na Grécia, em Atenas
E lutam, pois sim
Aí, em Plutão
Lutam com fim
E não dizem que não
Ah, morreu o Pluto
andalsness
Apenas e porque
Se sucedem lutos
E lutam
Nesse pelotão
Os que de luto acontecem
No sobrevir doutros lutos
Que de dia anoitecem
E de noite já não
E lutam
Porque e apenas
Sabem que o que ao nada sucede
É o que antecede e tão só
O que numa luta se perde
No mundo, na Grécia, em Atenas
E lutam, pois sim
Aí, em Plutão
Lutam com fim
E não dizem que não
Ah, morreu o Pluto
andalsness
Misiva Invernal (Traducción al Portuñol)
canta el estío
para que recuerdes
que en el septentrión cielo
todo se inscribe
que ridícula es la herida
que serena eres
la dulzura que fuiste
que sientes a flor
y que te quedas a piel
del vasto sentido que no tiene la vida
oye
no oías solo (a)
lo que la soledad permite
desespera, si
de noche, de día,
cambia todo y apenas lo que no varia
busca el vahído que sucede esa breve orgía
y oye
abre camino por la senda de la noche
y calca todo
rasga el cardillo, rompe la uva
roba el vino, pisa la sangre
y aún
la nota que traigas el la palma del guante*
no olvides, oye
salta la luz y en el cumbre de la brea
abre el pestillo y ama
lo visitante que pernocta
el la puerta de tu aurora
despues
dejale ir e revive
flemática
el sobrer del veneno de tu memoria
andalsness
para que recuerdes
que en el septentrión cielo
todo se inscribe
que ridícula es la herida
que serena eres
la dulzura que fuiste
que sientes a flor
y que te quedas a piel
del vasto sentido que no tiene la vida
oye
no oías solo (a)
lo que la soledad permite
desespera, si
de noche, de día,
cambia todo y apenas lo que no varia
busca el vahído que sucede esa breve orgía
y oye
abre camino por la senda de la noche
y calca todo
rasga el cardillo, rompe la uva
roba el vino, pisa la sangre
y aún
la nota que traigas el la palma del guante*
no olvides, oye
salta la luz y en el cumbre de la brea
abre el pestillo y ama
lo visitante que pernocta
el la puerta de tu aurora
despues
dejale ir e revive
flemática
el sobrer del veneno de tu memoria
andalsness
Saturday, October 10, 2009
The Can
Legado desse acidente é esta lata. E pouco restou que não esta lata, fina, longa, elegante até, de um vermelho tomate pouco vivo, como despojos outros, aliás. O Víctor, por exemplo, sobrou. É um sapo, aspirante a homem-rã. Ao dobrar a curva, ali o avistei, ao lado das remanescências do seu coche rojo, vociferando no seu castelhano perfeito, disputando culpas com o condutor do tractor. A cada vão impulso da ira apartavam-se um pouco mais, patinando no tapete de polpa de tomate Almeriense. Magnólia ao contrário. O Víctor é instrutor de buceo, técnico de soldadura de profundidade e um sapo. Um sapo, de lata vermelha na mão, aturdido, na curva da estrada, com pouco plástico para polir, esperando o comboio que jamás llegará. Regalou-ma quando o levei al pueblo. Sentados ao luar numa manta azul cuidadosamente esticada e em exemplar alinhamento com os cantos do iglu industrial bebiam o vinho. Ele depilava a ponta dos dedos na cera da vela. Ela, em estocadas secas, tatuava melgas no corpo com o rolo de papel de cozinha. Meia hora mais desta paz e, num ainda outro franzir das sobrancelhas, fita-me uma vez mais e ensaia uma risada, “elas a mim não me tocam”, dirijo-me ao carro, recupero a lata, fina, longa, de um vermelho pouco vivo, “se quiser pode usar, não é insecticida, mas sempre é mais duro".
andalsness
andalsness
Love Bug
Segurando o pau na vertical, preparava-se para iniciar o movimento que o esmagaria. Não o vais matar, pois não? Olhou-me, em silêncio de contra-luz. Não o mates. Porquê? Porque ele não faz mal a ninguém. Resgatei-o ao corredor da morte e mostrei-lho inofensivo. Mas eu não gosto de bichos. Não, tu não gostas de alguns bichos, não gostas de cobras. Nem de moscas! Pois, de moscas ninguém gosta, essas também eu as mato. Pousei o escaravelho no chão. Empunhou o pau, não parecia convencido. Deixa cá ver a via clássica - pensei – e se aparecesse aqui um bicho do tamanho que tu tens para esse e te espezinhasse? Levantou o olhar donde tinha descido para acompanhar o movimento do meu pé e, lentamente, a compreensão mirrou-lhe as pupilas. Do gratuito, claramente. Despedi-me, peguei no nécessaire e dirigi-me à mala do carro. Vestida a t-shirt, passo o olhar pela porta do wc, nem puto, nem pau, apenas um ponto negro no chão, imóvel. Ali se prostrava, esperneando de patas para o ar. O pau tinha desaparecido. Com o pé, tento virá-lo com um piparote. Sem êxito, dou-lhe um segundo piparote. Ao iniciar o movimento do terceiro sou sobressaltado por um ressonante adeus. Levanto a cabeça e, em câmara lenta, um carro cruza a rua e, na janela deste, o puto, de braço esticado, varre, em câmara lenta, o espaço com um leque de dedos bem abertos, rasgando, em câmara lenta, o mais generoso dos sorrisos. Em câmara lenta, enceto o esboçar dum aceno e, em câmara lenta, da retribuição do sorriso e, em câmara lenta, digo o tchau que abafa o estalido crocante.
andalsness
andalsness
Mar
- Mar?
- É o nome duma delas, acho. Escrevi-o antes, no livrinho que levo comigo.
- Não faço puto.
- Nem eu. Mas é linda, alta, esguia, de cair.
- Um pequenino?
- Sim, o que levo sempre comigo. Tem uns olhos verdes imensos.
- Verde-mar?
- Sim, um verde marinho, lindo de morrer, já estás a ver qual é?
- Acho que sim, de bolso, não é?
- Ela man, ela, é Mar não é? Estava no bar, ao balcão. Não bebe muito.
- Qual?
- Uma delas, a do lado de fora do balcão. Essa foi a segunda vez que a vi. Tinha calças de ganga.
- Mas qual?
- De um dos dois bares lá de baixo, não recordo o nome. Estava com um amigo.
- Mas qual balcão?
- Só há um balcão man, à direita. Ali estava, tranquila, dava ideia de ser cliente habitual.
- Ah, o balcão, o da empregada.
- Sim, esse, o bar, do balcão, da empregada. Estava só com um dos dois amigos da primeira vez.
- A empregada tem um amigo?
- Não, um amigo dela, ela estava lá com um amigo. E foi-se embora mais cedo, sozinha.
- Não me lembro de nenhum amigo, está sempre ocupada.
- Sim, estava com um amigo. Quando saiu do bar parou nas escadas.
- Qual bar?
- Aquele em que se desce umas escadas. Do interior, apenas lhe via metade do corpo.
- Da empregada?
- Não, do dela, nas escadas, man, concentra-te. A elegância daquela mão esquerda em acidental pendência cravou-se-me na memória.
- Mas no bar da empregada, certo?
- Sim, no de música 60’s, assim mais psicadélica. Absolutamente fantástica aquela mão, através da porta de vidro, deixada, recolhida ligeiramente para trás, quase em repouso, evitando apenas tocar na perna da amiga que cumprimentava, um degrau acima.
- No outro também, depende das noites.
- Mas muda mais. Uma mão, recordo-lhe uma mão, antes da cor dos olhos ou do cabelo.
- De empregada?
- A música porra, a empregada é sempre a mesma. Ela é nova, não faço ideia de que idade tenha, mas não é muito de sair.
- À semana não.
- Pois não, nunca a vi sair num dia de semana. Mas a terceira noite que a vi foi naquele concerto mais teen, que acho que foi num dia de semana.
- Mas deve sair, ela à semana não trabalha.
- Mas caga na empregada man. Ela. Ela não é muito de sair à semana. Durante o concerto olhava bastante, de soslaio, enquanto falava com a amiga.
- Foram ao concerto as duas?
- Sim, foi com uma amiga. Nesse dia foi embora ainda mais cedo, mas tenho quase a certeza que era dia de semana.
- Não, à semana não está lá.
- Mas não está lá aonde man? A forma furtiva como me olhava, tem uma timidez desconcertante.
- No bar.
- Não, no concerto, man, não é no bar. E por outro lado não. Sempre que passava os olhos por ela estava a olhar.
- Não, no bar à semana não.
- Qual era o nome dela? Era Mar, não era?
- Não faço puto.
- Esta manhã comprei dois selos e comecei a escrever-lhe uma carta.
- É esse o livro?
- Sim. Não sei que lhe diga, o verbo nunca foi dom meu.
- É uma espécie de passaporte sentimental?
- Não, será mais um livrete de condução emocional. Nunca fui Orfeu para tocar cordas outras que não as das malhas da razão.
- O livro tem uma mancha.
- É sangue. Antes, espécie de Fénix macho e sem plumas com 999 anos de idade.
- Mas carimbas com sangue?
- Não, cortei-me na corda da roupa. Mas escaldado apenas, que não transcende, não se transpõe, do seu brilho próprio, ao próprio brilho.
- Ah, o livro é uma espécie de registo ou atestado de uns quaisquer 100 anos de solidão?
- Não, é apenas um diário pouco rigoroso. Talvez lhe escreva a carta amanhã, com tempo.
- Não escreves todos os dias?
- Não, é muito raro, apenas em ocasiões especiais. A quarta vez que a vi foi num fim-de-semana, no outro bar.
- Então não é um diário.
- Não, é um quando é. Estava com uma amiga, só as duas.
- No outro bar, da empregada?
- Sim, mas da outra. Estavam ao balcão e a amiga estava muito animada.
- Ah, esta não é a mesma?
- Não sei, por acaso até acho que sim, acho que era a que estava no concerto, sim. E, nisto, chega um tipo que parecia jesus cristo e que monopolizou a atenção da amiga.
- A empregada estava no concerto?
- A amiga, a loira, a amiga dela, qual empregada no concerto man. Foi curioso – é linda; um minuto de abandono apenas e ficou imediatamente inquieta.
- Mas podia muito bem estar, se foi à semana.
- Poderia, mas não estava. Sentada ao balcão, com a amiga ao meio e o jesus na outra ponta, olhava a amiga, olhava o jesus.
- A empregada é muito fixe.
- São as duas. Estava de costas para mim, olhava a parede, olhava o relógio, olhou para trás, passou o olhar por mim e firmou o olhar num ponto vazio atrás de mim.
- A outra é mais gira.
- Sim, parece estrangeira. Esteve assim uns bons dez segundos até que, por fim, deslizou o olhar para o meu e, nos seus lábios, deu-me a ler um olá surdo.
- Qual, a outra?
- Sim, é mais sóbria e séria. Respondi com a mesma mudez e, nem que pudesse, desviaria o olhar dela.
- Epá está a trabalhar, aquilo tá cheio ao fim de semana.
- Não, é mesmo mais séria, mas muito doce. Desviou ela o olhar, ensaiando voltar-se de novo para a amiga e seu jesus.
- Tem assim uma cena de Amélie.
- Sim, foi o que lhe disse. A meio caminho, retrocedeu, olhou-me fixamente e sorriu.
- Foi o que lhe disseste?
- Sim, chamei-lhe Amélie. Não desviei o olhar, nem que quisesse o desviaria.
- Mas tu falaste com ela?
- Não, escrevi-lhe na dedicatória do livro. Pouco depois, paguei, fui comer qualquer coisa e dirigi-me ao outro bar.
- Ah, no teu diário.
- Não, deixei-lhe um livro no bar, para ela. Uma meia hora mais tarde, entro no bar e lá estavam elas, ao balcão, conversando com a empregada.
- Tu deixaste um livro à empregada?
- Sim, num dia de semana. Olharam-me as três e sorriram.
- Ela não está lá à semana.
- Pois não.
andalsness
- É o nome duma delas, acho. Escrevi-o antes, no livrinho que levo comigo.
- Não faço puto.
- Nem eu. Mas é linda, alta, esguia, de cair.
- Um pequenino?
- Sim, o que levo sempre comigo. Tem uns olhos verdes imensos.
- Verde-mar?
- Sim, um verde marinho, lindo de morrer, já estás a ver qual é?
- Acho que sim, de bolso, não é?
- Ela man, ela, é Mar não é? Estava no bar, ao balcão. Não bebe muito.
- Qual?
- Uma delas, a do lado de fora do balcão. Essa foi a segunda vez que a vi. Tinha calças de ganga.
- Mas qual?
- De um dos dois bares lá de baixo, não recordo o nome. Estava com um amigo.
- Mas qual balcão?
- Só há um balcão man, à direita. Ali estava, tranquila, dava ideia de ser cliente habitual.
- Ah, o balcão, o da empregada.
- Sim, esse, o bar, do balcão, da empregada. Estava só com um dos dois amigos da primeira vez.
- A empregada tem um amigo?
- Não, um amigo dela, ela estava lá com um amigo. E foi-se embora mais cedo, sozinha.
- Não me lembro de nenhum amigo, está sempre ocupada.
- Sim, estava com um amigo. Quando saiu do bar parou nas escadas.
- Qual bar?
- Aquele em que se desce umas escadas. Do interior, apenas lhe via metade do corpo.
- Da empregada?
- Não, do dela, nas escadas, man, concentra-te. A elegância daquela mão esquerda em acidental pendência cravou-se-me na memória.
- Mas no bar da empregada, certo?
- Sim, no de música 60’s, assim mais psicadélica. Absolutamente fantástica aquela mão, através da porta de vidro, deixada, recolhida ligeiramente para trás, quase em repouso, evitando apenas tocar na perna da amiga que cumprimentava, um degrau acima.
- No outro também, depende das noites.
- Mas muda mais. Uma mão, recordo-lhe uma mão, antes da cor dos olhos ou do cabelo.
- De empregada?
- A música porra, a empregada é sempre a mesma. Ela é nova, não faço ideia de que idade tenha, mas não é muito de sair.
- À semana não.
- Pois não, nunca a vi sair num dia de semana. Mas a terceira noite que a vi foi naquele concerto mais teen, que acho que foi num dia de semana.
- Mas deve sair, ela à semana não trabalha.
- Mas caga na empregada man. Ela. Ela não é muito de sair à semana. Durante o concerto olhava bastante, de soslaio, enquanto falava com a amiga.
- Foram ao concerto as duas?
- Sim, foi com uma amiga. Nesse dia foi embora ainda mais cedo, mas tenho quase a certeza que era dia de semana.
- Não, à semana não está lá.
- Mas não está lá aonde man? A forma furtiva como me olhava, tem uma timidez desconcertante.
- No bar.
- Não, no concerto, man, não é no bar. E por outro lado não. Sempre que passava os olhos por ela estava a olhar.
- Não, no bar à semana não.
- Qual era o nome dela? Era Mar, não era?
- Não faço puto.
- Esta manhã comprei dois selos e comecei a escrever-lhe uma carta.
- É esse o livro?
- Sim. Não sei que lhe diga, o verbo nunca foi dom meu.
- É uma espécie de passaporte sentimental?
- Não, será mais um livrete de condução emocional. Nunca fui Orfeu para tocar cordas outras que não as das malhas da razão.
- O livro tem uma mancha.
- É sangue. Antes, espécie de Fénix macho e sem plumas com 999 anos de idade.
- Mas carimbas com sangue?
- Não, cortei-me na corda da roupa. Mas escaldado apenas, que não transcende, não se transpõe, do seu brilho próprio, ao próprio brilho.
- Ah, o livro é uma espécie de registo ou atestado de uns quaisquer 100 anos de solidão?
- Não, é apenas um diário pouco rigoroso. Talvez lhe escreva a carta amanhã, com tempo.
- Não escreves todos os dias?
- Não, é muito raro, apenas em ocasiões especiais. A quarta vez que a vi foi num fim-de-semana, no outro bar.
- Então não é um diário.
- Não, é um quando é. Estava com uma amiga, só as duas.
- No outro bar, da empregada?
- Sim, mas da outra. Estavam ao balcão e a amiga estava muito animada.
- Ah, esta não é a mesma?
- Não sei, por acaso até acho que sim, acho que era a que estava no concerto, sim. E, nisto, chega um tipo que parecia jesus cristo e que monopolizou a atenção da amiga.
- A empregada estava no concerto?
- A amiga, a loira, a amiga dela, qual empregada no concerto man. Foi curioso – é linda; um minuto de abandono apenas e ficou imediatamente inquieta.
- Mas podia muito bem estar, se foi à semana.
- Poderia, mas não estava. Sentada ao balcão, com a amiga ao meio e o jesus na outra ponta, olhava a amiga, olhava o jesus.
- A empregada é muito fixe.
- São as duas. Estava de costas para mim, olhava a parede, olhava o relógio, olhou para trás, passou o olhar por mim e firmou o olhar num ponto vazio atrás de mim.
- A outra é mais gira.
- Sim, parece estrangeira. Esteve assim uns bons dez segundos até que, por fim, deslizou o olhar para o meu e, nos seus lábios, deu-me a ler um olá surdo.
- Qual, a outra?
- Sim, é mais sóbria e séria. Respondi com a mesma mudez e, nem que pudesse, desviaria o olhar dela.
- Epá está a trabalhar, aquilo tá cheio ao fim de semana.
- Não, é mesmo mais séria, mas muito doce. Desviou ela o olhar, ensaiando voltar-se de novo para a amiga e seu jesus.
- Tem assim uma cena de Amélie.
- Sim, foi o que lhe disse. A meio caminho, retrocedeu, olhou-me fixamente e sorriu.
- Foi o que lhe disseste?
- Sim, chamei-lhe Amélie. Não desviei o olhar, nem que quisesse o desviaria.
- Mas tu falaste com ela?
- Não, escrevi-lhe na dedicatória do livro. Pouco depois, paguei, fui comer qualquer coisa e dirigi-me ao outro bar.
- Ah, no teu diário.
- Não, deixei-lhe um livro no bar, para ela. Uma meia hora mais tarde, entro no bar e lá estavam elas, ao balcão, conversando com a empregada.
- Tu deixaste um livro à empregada?
- Sim, num dia de semana. Olharam-me as três e sorriram.
- Ela não está lá à semana.
- Pois não.
andalsness
Saturday, June 13, 2009
Da Loquela Taciturna
Conheço-lhe a comedida métrica
e a sensibilidade do mesocarpo
As asperezas rentes
e as branduras fundas
E, em cada frase, cada disfrase da alma
Fosse antes sedutora, em acto único,
sem subterrefúgios
Mas não é cércea que a colho
Ou desejo colherar
Para tal e para tanto que venha nua
e crua
A alma tártara, a carne bárbara
E só
Pois que o é, por desgraça, uma solidão
E sei bem que a ausência da mais diminuta dúvida a incertos pertence
Mas sei também que
assim mesmo
na palavra silêncio
me resvala o zelo
para desvelo
andalsness
e a sensibilidade do mesocarpo
As asperezas rentes
e as branduras fundas
E, em cada frase, cada disfrase da alma
Fosse antes sedutora, em acto único,
sem subterrefúgios
Mas não é cércea que a colho
Ou desejo colherar
Para tal e para tanto que venha nua
e crua
A alma tártara, a carne bárbara
E só
Pois que o é, por desgraça, uma solidão
E sei bem que a ausência da mais diminuta dúvida a incertos pertence
Mas sei também que
assim mesmo
na palavra silêncio
me resvala o zelo
para desvelo
andalsness
Monday, June 16, 2008
Pequenez (More Than This)
É matéria de artéria
De facto
Pútrida de afectos fátuos
Emana do medos
E espontaneamente
Inflama, combusta, conflagra
Alvoroça, revolta, subleva
Fosforesce e zaz
Amotina a paz
É que acaso a paixão ocasional
Não basta para do peito desterrar
E, cerimonialmente, enterrar
Esse monstro da mofina nominal
Seja então que, assim, sem hesitar
Chegue, cegue e desassossegue
Desperte, sobressalte e mate o susto
Engasgue, esgane e engane o soluço
Que vai mortificando este ocaso passional
É violento
E se viola o tento
As retinas turva
Força-as em curva
Silencia a palavra
A pequena e a farta
Talha a língua
A boa e a míngua
E assim
Sem sim
Nas cordas se enforcam
A cada pequena vez
Todos os brados que tocam
A minha pequenez
andalsness
De facto
Pútrida de afectos fátuos
Emana do medos
E espontaneamente
Inflama, combusta, conflagra
Alvoroça, revolta, subleva
Fosforesce e zaz
Amotina a paz
É que acaso a paixão ocasional
Não basta para do peito desterrar
E, cerimonialmente, enterrar
Esse monstro da mofina nominal
Seja então que, assim, sem hesitar
Chegue, cegue e desassossegue
Desperte, sobressalte e mate o susto
Engasgue, esgane e engane o soluço
Que vai mortificando este ocaso passional
É violento
E se viola o tento
As retinas turva
Força-as em curva
Silencia a palavra
A pequena e a farta
Talha a língua
A boa e a míngua
E assim
Sem sim
Nas cordas se enforcam
A cada pequena vez
Todos os brados que tocam
A minha pequenez
andalsness
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